Nas últimas semanas, tenho refletido bastante quanto à questão da paquera. É possível aprender? O que é importante nesse momento? Mais ainda, a forma do flerte é diferente entre gays e heteros? O pai de Juno afirma que a pessoa ideal para você gostará de você independente de qualquer coisa, mas... Será que na conquista ela já tem toda a idéia da complexidade do seu ser a ponto de gostar de você por quem você é?
No Club 69, em Ipanema, resolvi começar a colocar em prática meus estudos. É comum nas boates o clima de poder que umas pessoas querem transparecer, e essa parece ser uma característica essencial no momento da conquista. Poder, diga-se, autoconfiança. Em ambientes heteros, isso parece estar bem delimitado por dois papéis: homem (poder – ativo) x mulher (submissão – passiva). Ótimo que isso esteja mudando e as mulheres estejam cada vez mais tomando atitude. Nunca se pode generalizar, tratando-se de indivíduos. Em ambientes gays é mais complicado. Ambos são homens, logo, culturalmente, ambos têm o papel de tomar atitude. A divisão de ativos tendo mais atitude e passivos sendo submissos não vale tanto assim. Um homem alto, forte, masculino, cheio de atitude, pode ser extremamente ativo... Lá atrás. Em linhas gerais tende ao ativo ter atitude, mas como saber se o cara é ativo ou passivo? Impossível. Tenho uma amiga que brinca lá atrás com o namorado hetero, e isso não faz dele nem um pouco menos hetero. O anus é uma zona erógena também, independe da orientação sexual.
A troca de olhares é um ponto comum entre gays e heteros. Entre gays, então, nem se fala. Quem nunca passou por aquela situação de ver um cara gato na rua, contar três segundos e olhar para trás para ver se ele olhou de volta? Muito disso pode estar ligado ao sentimento de proibição, ainda existente, que faz as pessoas ficarem receosas quanto a tomar uma atitude mais direta, principalmente em ambientes que não sejam gay friendly. Em boates heteros, homens e mulheres mantêm o olhar fixo para demonstrar interesse também. Só não dá para esperar que a pessoa note seu interesse por você ter ficado 2 segundos olhando para ela. Ficar secando a pessoa muito tempo também não ajuda. Tem de haver um balanceamento. Olhou demais para você? Vai até lá puxar um papinho...
Li uma matéria que afirmava que 90% da linguagem são não-verbais, logo a maneira como você se sente cria toda uma forma corporal que é decodificada pelo outro. Peito aberto transparece poder; ombros caídos, corpo reclinado, submissão. É muito difícil encontrar quem goste do inferior (SM?), quem se sinta atraído por isso. No geral, as pessoas gostam de quem confia em si mesmo, podendo rolar uma troca.
Voltando ao Club 69, minha cantada daquela noite foi “Tá sozinho?”, acredite se quiser. Eu mesmo, se ouvisse isso, talvez risse da pessoa e dissesse um seco “não”. Na reportagem da DOM desse mês sobre paquera, um psiquiatra fala que abordagens ruins podem até ser uma auto-sabotagem, pensando ou no receio de ser rechaçado, na imensa superioridade em que ninguém é bom o bastante – leia-se narcisismo-, ou o medo do vínculo, por exemplo. (Não, as escolhas que fazemos não são tão simples e óbvias quanto parecem) Fato é que essa atitude foi catastrófica como cantada, mas fantástica por ter significado tomar atitude.
Fernando, gay, 20 anos, sempre consegue ser muito simpático com as pessoas e parece ter grande habilidade no momento da conquista. Pelo que eu noto, a abordagem dele consiste sempre em algo que tende ao humor, uma forma de quebrar essa atitude mecânica das pessoas e trazê-las mais para a descontração. Essa abordagem conta também com reparar um aspecto específico da pessoa para comentar sobre, como uma tatuagem, nunca sendo tão sério e tornando a pessoa única, não apenas mais um da noite.
Falar sobre problemas, ex-relacionamentos e como você gosta de ficar sozinho em casa parece não agradar nada também. Uma analogia que achei interessante foi comparar a paquera com um cliente que entra numa nova loja, de modo que você tem de fazer o cliente se sentir interessado em entrar mais nessa loja, não entregando tudo de bandeja.
Sim, parece que as pessoas gostam de ser rejeitadas. Isso cria uma sensação de conquista, de que não está muito seguro. Segurança demais afasta a maioria (!). Erika, hetero, 20 anos, é assim. O cara pode ser bem agradável, mas se ligar demais nos primeiros dias, mandar muita mensagem... Tchau, tchau. Perde-se o interesse porque se perde o mistério.
Outro episódio recente foi o de Marcelo, gay, 23 anos. Entreguei tudo muito de bandeja e... Estou sendo rejeitado. Nos momentos em que eu me mostrava não tão disponível assim, pouco ligando, ele vinha me querendo. Ir com muita sede ao pote dá nisso. Serve de lição. Convenhamos, vamos pensar racionalmente: Há 6 bilhões de pessoas no mundo. Por que raios ficar se sentindo tão mal como se essa fosse a última possibilidade de conquista de sua vida? O importante de notar dessa situação é que não chegamos a ficar propriamente. Estávamos (ou estamos?) no momento da conquista, somente. O mesmo já ocorreu em outros momentos. Quando eu estava interessado pela pessoa, ela me rejeitava; mas, surpreendentemente, quando eu não queria mais, lá vinha ela de charminho. E isso é muito principalmente na conquista, pois quando as pessoas já estão envolvidas e cativadas estão dispostas a começar a ver o lado não tão bom da moeda. Na conquista, jamais. Muitos roncam, todos soltam gazes. Human, after all.
Pensemos o papel que a bebida exerce sobre as pessoas. A bebida é capaz de desatar algumas amarras sociais, tornando as pessoas mais soltas, sem medo do ridículo, com atitude (!), sem temer o outro (se a pessoa se sente temida, ela sente uma inferioridade de sua parte, o que não agrada). Ideal seria a pessoa criar confiança em si mesma sem depender de “bengalas”, mas enquanto não é completamente auto-suficiente, pode até usar uma biritinha. Só não exagere e não volte dirigindo, por favor!
No último final de semana, no entanto, saí, bebi, me diverti horrores, acabei a noite na Le Boy conversei muito com um cara inteligente, alto, bonito e... créu. Ser simpático, ter atitude, se mostrar confiante, simples assim. O bom e o ruim são muito subjetivos, certo?
Every successful player was once a beginner. Lembrem-se disso. A prática leva a perfeição. Agora, sem praticar... Fica bem difícil de aprender. Principalmente, se observem e reflitam se o outro fizesse o que você faz, se você próprio gostaria. Você é o material a ser apresentado, a você e ao outro. Como você gostaria de ser visto(a), como um genérico ou um Dior?
Bjo, bee.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
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3 comentários:
Que legal seu texto...
Bem, eu sou péssima em paqueras. Péssima mesmo. Minah vida amorosa é uma piada. Já tentei ler o sexy and the city e nada adianta.
Como vc disse a auto confiança é o elemento ideal pra qualquer paquera. Não adianta secar, nem se exibir, nem se fazer de tímido. Se a pessoa não tá com aquele brilho interior, nada rola.
Que bom que a paquera na Le boy deu certo.
Concordo plenamente sobre o caso do homem ativo e da mulher passiva. Embora eu conheça caras super passivos em relação as mulheres. Já no caso dos homos, já me falaram que os gays, tem aquela coisa de homem safado... e fazem o mesmo q fazem com as mulheres, usam e jogam fora, coisas do tipo. Já com as lésbicas rola mais sentimento e a relação tem mais chances de durar.
adorei seu blog, vc escreve super bem... voltarei aqui mais vezes, e te linkei.
Passe lá no meu tbm...
Bjos!
http://mondedeimagination.blogspot.com/
Ah, muito obrigado pelos elogios! Não sei se a questão é dos gays terem aquela coisa de homem safado, acho que é mais a questão de os HOMENS terem essa coisa de homem safado. hahaha. Logo, gays sendo homens, é natural esse apelo mais sexual, certo?
Passarei lá no seu também.
beijos!
É engraçado.. por algum tempo achei todo esse protocolo para se aproximar de uma pessoa muito fútil e repetitivo. Não seria possível transgredir esse procedimento quase teatral - não vou ligar agora pra parecer independente, demorar pra responder pra me mostrar ocupado, etc - e assumir uma postura de sinceridade mútua, onde ambas as partes dispensam toda essa enrolação? Claro, isso dependeria de uma conversa quase existencial logo num primeiro momento para deixar claro certos pressupostos filosóficos em comum.
A conclusão a que cheguei, apesar de tudo, é que não. Se o teatrinho existe e se instituiu - e não é de hoje - é porque de fato faz sentido. Mesmo um casal como o que descrevi acima, disposto a transgredi-lo, por mais filosóficos que sejam, estão submetido a ele, como fantoches. Transgressão voluntária é ilusão. Simplesmente porque relacionamento não é sobre racionalidade. E na lógica dos sentimentos, "fazer-se misterioso para o outro", "perceber que a fila do outro anda", etc, são proposições necessárias para a sobrevida de algum interesse.
O que torna o protocolo suportável, para mim, é o simples fato de as pessoas serem diferentes. A sequência pode ser a mesma, mas como se desenrola, a maneira de falar do outro, de agir, de reagir, é única.. e temos curiosidade de como será com o próximo.
E, claro, sem achar que o próximo vai ser a solução, ou um achado arqueológico. Se vc não se satisfaz com nada, o problema não é do mundo. No fundo é sempre o balanceamento de prós e contras. E haja paciência com os contras.. afinal nós tb somos cheios deles.
bjo João!
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